A Masculinidade iniciadora de Ogum

Dessalín Òkòtó
8 min readMay 20, 2019

Ogum é a masculinidade iniciadora, penetrante, que vai e faz o que deve ser feito “por qualquer meio necessário” para que novos processos se iniciem e uma nova realidade se estabeleça para a sua comunidade.

Quando Ogum vai primeiro, ele deixa atrás de si um caminho pronto para que todos os outros sigam atrás dele cultivando, construindo, edificando e administrando o que foi criado e conquistado ao longo do percurso. Mas, para iniciar novos processos, é preciso recriar a realidade, é preciso transformar as coisas. Por isso, muito antes de guerreiro, general ou orixá da guerra, Ogum é o orixá da tecnologia, do progresso e da edificação. O mundo já existe e a natureza já está pronta com suas matérias e as leis e energias que organizam essas materias. Mas a interferência nessas leis e energias altera a qualidade dessas matérias. Dessa maneira, uma simples pedra pode se tornar numa machadinha; ou um ferro bruto no subsolo se tornar um espada; ou ainda uns poucos quilos de urânio no subsolo pode fornecer energia nuclear por muito tempo para uma grande cidade ou uma bomba atômica; ou mesmo algumas poucas gramas de lítio permite que o computador ou o celular que vc usa para ler este texto funcione. Ogum é e está em tudo isso: ser esse agente iniciador de processos pela transformação da realidade.

Porém, essa potência iniciadora de Ogum tem um custo alto. Pois a transformação é um processo violento. Mas, antes de continuar com isso, é bom escurecer que só chamamos de “violento” pois estamos olhando com uma espiritualidade cristianizada, com um entendimento muito embranquecido, ainda. ‘Violento’ tem sua raiz no grego antigo e significa “anti-natural”. Sendo todo processo e atividade que não segue a tendência da natureza, como transportar uma pedra para cima quando sua tendência natural é ir para baixo ou forçar o repouso de algo que tendia a estar parado. E percebam o emprego da palavra “força”. Pois assim como esse processo de transformação da natureza é visto como violento, ele só é “violento” pois resulta do emprego da “força”. Ou seja, a transformação é uma violência sobre a realidade que exige forçar o início de um novo processo. A gente vê por aí muita gente falando de “Força” no sentido de resistência: “Fulana é forte pois aguentou passar por isso e mais aquilo na vida e ainda tá aí”. Mas também tem outro sentido de força que é no sentido da agência (agir): “Fulana é forte pois foi capaz de fazer isso e mais aquilo quando tudo estava contra ela”. A força da resistência é importante, pois ela conserva o que foi construído, guardar o que foi conquistado. Mas só a força no sentido de “agência” permite a gente iniciar, avançar, construir e conquistar novas realidades no mundo. Numa, a violência está na mão do outro e atende aos interesses dele. Noutra, a violência está nas nossas mãos e atende aos nossos interesses. Mas não dá pra entender “força” e “violência” com esse olhar, apenas. E aí que a gente escurece essa visão. A força de Ogum é o axé a partir do qual ele realiza as coisas, assim como a violência é, digamos assim, o método do emprego desse axé. Ao cavar o solo para plantar, desbravar a mata para caçar, penetrar nos rios para pescar, martelar e forjar armas na fornalha para fabricar e liderar exércitos numa batalha, Ogum está dando o seu axé para que a civilização humana seja construída. Enquanto povo preto em diáspora, confinados nesse senzalão chamado Brasil, convivendo e resistindo a toda forma de racismo todos os dias, esta violência está grávida de liberdade e, quando devidamente gestada, pare quilombos e prosperidade para quem do nosso povo estiver disposto a pagar os custos que Ogum teve disposição de pagar.

E quais foram eles?

Há um itan em que Ogum desce ao Ayiê antes de qualquer outro orixá e prepara a terra para ele ser habitado pelos orixás e pelas pessoas. Depois de construir, ele sobe ao alto de uma montanha e, de lá, avista toda invasão e, antes que ela chegue na cidade, ele vai lá e guerreia com os invasores e, assim, permite que a cidade esteja sempre em segurança. Numa dessas idas, os outros orixás o reprovam por estar sempre “em guerra” e ele, bravo com a falta de reconhecimento, se cobre de mariô e entra na floresta. Em outro Itan, Ogum deita-se com sua própria mãe Iemu e, após ser pego em flagrante por seu pai Obatalá, é castigado sendo obrigado a morar nas estradas vivendo da ajuda que dá aos viajantes que se perderam nos seus caminhos. Em uma variação desse itan, Ogum é condenado à ficar na fornalha trabalhando incansavelmente na fabricação de instrumentos e armas até que vem Oxum, o seduz e eles se casam. Há ainda outro itan onde Ogum faz um ebó para se tornar poderoso. Com esse ebó, ele passa a ter o segredo da forja do ferro e passa a ser chamado de “quem transforma a terra em riqueza”. E mais ainda outro itan onde ele faz um ebó se munindo de todo tipo de arma e força para roubar os segredos que garantiam poder às mulheres e, com isso, os homens passam a ter os segredos e poder sobre as coisas.

Quais os custos que Ogum pagou?

Quando Ogum vem na frente e cria a civilização para os seres humanos e orixás habitarem o ayiê e segue ao alto da montanha para antever as guerras que chegavam à cidade, ele paga o custo de iniciar a realização de algo ainda impensável. Um inventor, um cientista, um artista ou um político, quando trazem uma novidade, são frequentemente rechaçados na concepção e construção passando por sucessivos erros e acertos. E essa descrença acontece até que sua invenção, sua teoria, sua obra de arte ou seu feito político se realizam e todos começam a compreendê-la e, dali adiante, reconhecer sua grande contribuição para a comunidade. O custo de ir na frente, como Ogum, é ter que estar em guerra contra tudo e contra todos da própria comunidade até realizar o que foi projetado.

Já nos itans em que Ogum deita-se com sua mãe Iemu, vemos Ogum pagar o custo de ensinar aos outros a não caírem no mesmo erro que ele e por sua força e astúcia para melhorar a vida da comunidade. Errar também é aprender e descaminhos também são caminhos. Seja orientando quem está perdido, seja forjando instrumentos para que as pessoas construam suas civilizações, o custo que Ogum paga por ser dotado de potências tão grandes é deixá-las à serviço da sua comunidade, e não apenas a si.

Nos dois itans que Ogum faz ebó para, em um, deter o conhecimento do ferro e enriquecer com a forja das armas e instrumentos e, em outro, ter o segredo que era exclusivo das mulheres, vemos o custo do “fazer o que é necessário ser feito” para algo se realizar. E isso é algo que Exu é o primeiro a ensinar (e, não por acaso, Exu e Ogum são irmãos!). Para se obter algo, é preciso dar algo. Quem dá pela metade, obtém pela metade. Quem dá por inteiro, obtém por inteiro. Mas é bom não confundir essa lição com a meritocracia branca. Pois as condições de possibilidade e oportunidade não estão igualmente dada para os brancos e os negros, para os ricos e os pobres, para os homens e as mulheres, para os que são de certos lugares e para os que são de outros. Ainda assim, vejam só como nosso povo ainda age nessa filosofia do “obter à medida do que dá” sem precisar formular ela. Quantas “histórias de sucesso” e também “histórias de fracasso” de pretos e pretas não vemos por aí onde mesmo sabendo que vão partir em muito mais desvantagem que os outros, os pretinhos e pretinhas pagam um dobrado, um triplicado e o quanto for necessário para conseguir chegar no mesmo lugar que os que partiram lá frente? O “sucesso” e o “fracasso” vai ser dado pela obtenção ou não daquilo. Pelo fim, e não pelo percurso. Aí é um juízo branco sobre uma prática negra. Mas percebam como, se a gente espiritualiza a ideia de “meritocracia” fajuta dos brancos, a gente se reconecta com um sentido de justiça bem mais conforme ao nosso coração, olhando para a trajetória, para os caminhos e descaminhos, e não para a chegada.

E há itans onde Ogum também demonstra esse senso de justiça e comunidade, num deles até para neutralizar os abusos de poder do orixá da justiça. Há um, onde ele pune todos aqueles que humilhavam um trabalhador e poupa aqueles que o tratavam dignamente. Há outro, em que ele sai para guerrear e, quando volta, ele dá todo o seu espólio de guerra a uma vendedora de acaçá que generosamente alimentou todo o seu exército após uma batalha .Há também um em que ele sai para guerrear e, ao voltar, sua cidade está sendo destruída por uma invasão inimiga e, mesmo cansado da batalha, Ogum vai lá e derrota os invasores. Após a batalha, Ogum ensina ao seu irmão Odé a caçar e guerrear para proteger seu reino, sua comunidade e suas riquezas. Desde então, Ogum podia ir guerrear, que Odé protegeria a sua casa. E mais um outro onde ele usa da sua astúcia para enganar Xangô e resgatar Oxum do definhamento a que estava sendo submetida pelo Obá Kossô. Vejam que, nos dois primeiros itans, a mesma força e violência que pune os que agem no erro, recompensa quem tanto serviu. O axé é o mesmo. Quando Ogum volta e ensina Oxóssi a caçar e guerrear, Ogum está ensinando sobre a proteção e prosperidade. Pois a força e riqueza de um é nada se a comunidade for fraca e miserável. E, no itan com Xangô e Oxum, o emprego da astúcia, ao invés da força, dribla alguém tão astuto como Ogum, como é o caso de Xangô, para intervir e livrar a Oxum, a fertilidade, do definhamento. Neste último, vemos que a violência também tem seu caráter libertador do abuso de poder que impede a criatividade, a natalidade, a continuidade e renovação da vida. Pois Oxum é fertilidade e vida. O axé é o mesmo. Se nosso povo ainda não está livre para a vida, é também porque está empregando sua força e violência desconectada do axé de Ogum.

A masculinidade iniciadora de Ogum traz a ele essa potência de força, astúcia, transformação ao custo da violência. Mas também vemos que tudo isso só ganha sua máxima valorização, se servir à comunidade. Com ou sem o reconhecimento dos seus, Ogum vai. Vai pois tem que ir. Vai e não há ninguém que o pare. Vai, mesmo que custe a sua própria felicidade. Mas ele não vai sem voltar. Pois precisa partilhar o que sua conquistou para a sua comunidade. Seja o solo que ele cava e semeia, seja a fornalha que ele forja e fabrica, ou mesmo a guerra onde ele realiza a mais espetacular das violências humanas, o que Ogum conquista não é dele, é da sua comunidade. Por isso Ogum recusou a coroa. Por isso, mesmo coroado, Ogum não sentou-se ao trono e foi guerrear. Pois Ogum é o homem que vai para a luta e conquista o que precisa. Mas Ogum é também o homem que volta. Pois ninguém vai muito longe se não alimentar sua escolta.

Originalmente publicando na página Orixás&Pretagogias.

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Dessalín Òkòtó

Querendo ser educador para melhorar minha comunidade, sentei para aprender e agora levanto para também ensinar.